A morte do homem comum
Um dos releases que Phoebe, a assessora de comunicação do artista chinês Cai Quo-Giang – que é a matéria “A Explosão da Arte Contemporânea” da nova Inventa – disse que uma das maiores influências do artista foi a leitura de livros proibidos no país na época e que seu pai, dono de livraria, conseguia traficar para o filho. A peça Death of a Salesman de Arthur Miller foi o mais marcante dentre eles e não é difícil encontrar paralelos entre a arte de Cai e a obra prima vencedora do Pulitzer de Miller.
A Inventa foi atrás (na livraria Cultura em SP) e leu a obra no original em inglês. Death of a Salesman conta a história de Willy Loman, um vendedor em clara decadência. Aliás, numa espécie de Dom Quixote contemporâneo, a caída de Loman na realidade representa um encontro com a verdade de alguém que nunca foi, a não ser em sua própria mente, e que tem dificuldades em assumir isso aos 63 anos de idade. A própria necessidade de ter sido alguém “que tenha saído alguma vez no jornal”, segundo palavras da peça, parece ser o tema central da trama. O nome Loman (low man, ou homem comum) é uma referência à isso.
Cai por sua vez ganhou a Biennale de Veneza em 99 com uma exposição que retratava a decadência do homem comum que se perdia na alienação do trabalho. 108 esculturas de pessoas foram construídas em barro durante a exposição e como não foram ao forno, em pouco tempo elas começaram a se deteriorar e os visitantes puderam ver os pedaços das esculturas caindo enquanto passavam por aquele exército de barro de homens comuns.
O partido comunista na China acabou condenando os artesãos que construíram as esculturas por ter destruído a “propriedade espiritual” dos homens comuns. Propriedade espiritual, auto-conhecimento, que Loman passa até o fim de seus dias sem conhecer durante os diálogos que mostram sua própria destruição.
4 de January de 2010 at 14:38